HUGO, Vítor (1802–1885). Obras (Lello & Irmão — Editores, Porto, 1969), 2 vols.
Figura maior do romantismo europeu, Victor Hugo ocupa posição central na literatura do século XIX, tanto pela extensão de sua obra quanto pela amplitude de sua intervenção intelectual e política. Romancista, dramaturgo e poeta, sua produção articula imaginação narrativa, crítica social e reflexão histórica, compondo um dos corpos literários mais influentes da modernidade.
A presente edição, publicada por Lello & Irmão, no Porto, insere-se no esforço editorial de difusão dos grandes clássicos europeus em língua portuguesa, reunindo em dois volumes uma seleção ampla e representativa da obra romanesca de Hugo. Trata-se de edição de vocação, característica das casas editoriais portuguesas da primeira metade do século XX, que privilegiavam compilações extensas, bem organizadas e destinadas à leitura contínua.
O conjunto apresenta organização ampla e criteriosa. O Volume I apresenta obras iniciais e de maturidade — Han de Islândia, Bug-Jargal, O Último Dia de um Condenado, Nossa Senhora de Paris, Claudio Gueux, Os Trabalhadores do Mar e O Homem que Ri. O Volume II concentra títulos de maior escopo histórico, político e moral, notadamente Os Miseráveis, além de Noventa e Três e História de um Crime, compondo um panorama sólido da evolução literária e intelectual do autor.
A edição distingue-se ainda pelo aparato editorial que a acompanha. Abre-se com nota dos editores, na qual se explicita o propósito de oferecer uma versão revista e ampliada das obras, incluindo acréscimos e textos complementares. Segue-se uma cronologia específica da vida e obra de Victor Hugo, que percorre desde o final do século XVIII até a sua morte em 1885, articulando acontecimentos biográficos, publicações e intervenções políticas. Os volumes são enriquecidos por índices extensos e minuciosamente organizados, que evidenciam a estrutura interna das obras — com divisão por livros, capítulos e partes — permitindo não apenas leitura contínua, mas também consulta sistemática, característica típica das grandes edições de referência.
Como exemplo da densidade moral e da força reflexiva apresenta nesta coleção, destaca-se o seguinte trecho de Os Miseráveis:
«O ódio ao luxo, seja dito de passagem, é um ódio mal entendido, pois isso implica ódio às artes. Todavia, entre os ministros da Igreja, o luxo, a não ser em casos de representação ou ocasião de cerimônias, não deve ter cabimento, porque parece revelar hábitos na realidade pouco caridosos. Um padre opulento é um contra-senso. O dever do padre é velar junto dos pobres. Ora, é possível estar dia e noite, incessantemente, em contacto com toda a qualidade de misérias, indigências e infortúnios, sem ter sobre si próprio, à semelhança do pó do trabalho, uma porção diminuta dessa santa miséria? Pode conceber-se que um homem colocado junto de um fogareiro não tenha calor? É crível que um operário que lida continuamente com uma fornalha não tenha nem um cabelo queimado, nem uma unha crestada, nem uma gota de suor na testa, nem uma farrusca de carvão no rosto?
A prova mais concludente da caridade no padre, e mormente num bispo, é a pobreza.» (v. 2, pp. 51–52).
Apresenta-se em encadernação editorial plena, com elegante decoração dourada nas lombadas — de padrão ornamental repetido — e títulos igualmente em dourado, bem preservados e nítidos. As capas mantêm sobriedade gráfica e unidade visual, característica da editora. Pontos de oxidação nos cortes, mais acentuados no corte superior, e nas primeiras e últimas folhas, sem prejuízo do texto. Miolos integrais e completos. Encadernações Firmes, com Sinais Discretos de Relacionamento.