GAMA, Arnaldo (1828–1869). Obras (Lello & Irmão, Porto, 1973), 2 vols.
GAMA (Arnaldo) [1828–1869].— OBRAS // DE // ARNALDO GAMA // VOLUME I // O SARGENTO-MOR DE VILAR • O SEGREDO DO ABADE • // O BALIO DE LEÇA • A ÚLTIMA DONA DE S. NICOLAU // • UM MOTIM HÁ CEM ANOS • O FILHO DO BALDAIA • // A CALDEIRA DE PÊRO BOTELHO • EL-REI DINHEIRO // ILUSTRAÇÕES // DE // GOUVÊA PORTUENSE // [Marca tipográfica do editor, com figura alegórica e lema «Decus in labore»] // 1973 // LELLO & IRMÃO — EDITORES // PORTO // OBRAS // DE // ARNALDO GAMA // VOLUME II // O GÉNIO DO MAL • VERDADES E FICÇÕES • // HONRA OU LOUCURA • POESIAS E CONTOS // ILUSTRAÇÕES // DE // GOUVÊA PORTUENSE // [Marca tipográfica do editor, com figura alegórica e lema «Decus in labore»] // 1973 // LELLO & IRMÃO — EDITORES // PORTO.— In-12.º., 2 v. (Vol. I, LXXII, 1848 p.; Vol. II, 1799 p.). E. editorial.
Figura central do romance histórico e social português do século XIX, Arnaldo Gama destacou-se pela escrita vigorosa, atenta às contradições morais do seu tempo e profundamente sensível às desigualdades que atravessavam a sociedade urbana. A sua obra articula narrativa, crítica social e observação direta da realidade, afastando-se do mero folhetim para assumir um tom quase documental em muitos trechos.
O primeiro volume das Obras de Arnaldo Gama reúne os romances O Sargento-Mor de Vilar, O Segredo do Abade, O Balio de Leça, A Última Dona de S. Nicolau, Um Motim Há Cem Anos, O Filho do Baldaia, A Caldeira de Pêro Botelho e El-Rei Dinheiro. Conjunto essencialmente composto por romances históricos, estas obras exploram episódios decisivos da história portuguesa, com particular atenção aos conflitos entre poder civil e religioso, às tensões sociais, às revoltas populares e às transformações morais do país, sempre sustentadas por rigor documental e forte sentido narrativo.
O segundo volume reúne O Génio do Mal, Verdades e Ficções, Honra ou Loucura e Poesias e Contos, compondo um panorama mais amplo e variado da produção do autor. Aqui predominam o romance social, a crítica moral e o retrato direto da miséria urbana, ao lado de textos de caráter reflexivo, narrativas curtas e poesia. Este volume evidencia a vertente mais psicológica e crítica de Arnaldo Gama, com especial atenção às desigualdades sociais, aos dilemas humanos e à observação incisiva da vida quotidiana.
Um dos momentos mais contundentes da obra encontra-se em O Génio do Mal, onde Arnaldo Gama confronta diretamente o leitor com a realidade da pobreza extrema no Porto oitocentista. Longe de recorrer a cenários exóticos ou importados da literatura estrangeira, o autor faz questão de sublinhar que o horror descrito nasce da observação direta do meio português:
«Leitor, não penses que este quadro é copiado dos Mistérios de Paris ou dos de Londres; esta cena é pintada do natural. Não é só lá por fora que há esses quadros de horrorosa miséria; nós também os temos por cá. O Pepino morreu com o seu proprietário, terminou para sempre o Lapin Blanc portuense; mas se quereis ver os seus horrores reproduzidos, se tendes a coragem de encarar a miséria, a dissolução em toda a sua horrível nudez, entrai numa locanda dormida.
A especulação selvagem, protegida pelo egoísmo da época, foi a sua instituidora. E ainda assim não pretendais destruir essas casas. O desvalido não teria onde pousar um momento a cabeça; porque em nenhuma outra parte encontraria por quinze ou vinte réis um pedaço de terra húmida e uma esteira apodrecida, onde recostar o corpo alquebrado da fome, e uma manta com que cobrir uma noite.
Se tendes coragem, penetrai aí dentro; mas ide prevenidos — lá dentro a fome pronuncia-se de todas as maneiras. Aí dorme o ladrão e a prostituta, o gaiato e o mendigo das esquinas. O vosso traje, por menos distinto que seja, tentará essa gente que se cobre com farrapos, e que come de dois em dois dias um pedaço de pão. Tentará o gatuno que vos esfaqueará por doze vinténs que tenhais na algibeira; ou a desgraçada que durante a maior parte da noite prestou o seu corpo a todos os caprichos da mais cínica e depravada volúpia, para ter um bocado de pão que comer.»
(p. 67).
O trecho evidencia a força moral e literária de Arnaldo Gama: uma escrita que recusa o sensacionalismo fácil, mas não poupa o leitor do confronto direto com a miséria, a exclusão e as consequências sociais da especulação e do abandono.
Edição portuguesa publicada em 1973 pela Lello & Irmão – Editores (Porto), em dois volumes, com ilustrações de Gouvêa Portuense. Encadernação editorial em vermelho, com dourações preservadas nas capas e lombadas, padrão ornamental clássico e títulos gravados.
Exemplares em muito bom estado geral de conservação, com encadernações firmes, lombadas íntegras e dourações bem preservadas. Miolo sólido, páginas limpas na maior parte, apresentando apenas leves pontos de oxidação, compatíveis com a idade da edição, sobretudo nos cortes e em algumas folhas iniciais e finais. Conjunto harmonioso e plenamente apto tanto à leitura quanto à coleção.
Largura: 12,5 cm