A dor que escreve à noite
POR TOMÁS ALVOREDO 27/04/2026

A dor que escreve à noite

Edward Young e a grandeza de suas «Noites»

A dor que escreve à noite

Frontispício do tomo I da primeira tradução portuguesa de Night Thoughts (Noites d'Young), de 1785 · Acervo Inactual ©

A noite aparece com frequência na literatura, mas quase sempre como suporte: cenário, intervalo, fundo para ações que se organizam segundo outra lógica. Ela não determina a forma do texto.

No século XVIII, essa posição se altera.

Com Edward Young, a noite continua a enquadrar o texto, mas deixa de ser neutra. Ela passa a concentrar o próprio trabalho do pensamento — não por progressão, mas por repetição e retomada. Em Night Thoughts, publicado entre 1742 e 1745, não há progressão dramática no sentido tradicional. O texto se constrói por interrupções, retomadas e variações sobre os mesmos temas.

Nascido em 1683, na Inglaterra, Young pertence a uma geração ainda marcada pelo horizonte religioso e moral do início do século XVIII, mas já atravessada por uma inquietação que escapa ao equilíbrio clássico. Sua formação anglicana e sua trajetória como clérigo situam sua obra num ponto de tensão: entre a tradição devocional e uma sensibilidade cada vez mais introspectiva. A noite que ele escreve não é apenas cenário espiritual; é o espaço em que a experiência individual se expõe sem garantia de resolução.

Frontispícios dos 2 tomos da primeira tradução portuguesa de Noites d'Young (Typografia Rollandiana, Lisboa, 1785)

Primeira tradução portuguesa de Noites d'Young (Typografia Rollandiana, Lisboa, 1785)

Ele se insere num momento específico da cultura europeia em que o projeto iluminista — com sua confiança na razão, na ordem e na clareza — começa a revelar seus limites. Interessa, cada vez mais, aquilo que resiste à explicação: o tempo, a morte, a solidão, a instabilidade da experiência interior. A noite, nesse contexto, deixa de funcionar apenas como marca temporal e passa a interferir no modo como essa experiência é pensada.

Sua escrita dialoga com uma tradição anterior — a meditação religiosa, os sermões, a poesia moral inglesa —, mas a reorganiza de modo decisivo. As Night Thoughts conhecem ampla circulação europeia e influenciam diretamente autores como Goethe e Herder, além de participarem da formação da sensibilidade que, nas décadas seguintes, se consolidaria no romantismo.

O que se estabiliza em Young não é um tema, mas um procedimento. O pensamento deixa de avançar por encadeamento e passa a se desenvolver por retomadas, variações e deslocamentos internos. É isso que torna o texto transportável: não o que ele diz, mas a forma como diz.

Vicente Carlos de Oliveira, tradutor da primeira edição portuguesa, de 1785, é direto:

[...] os ataques [de melancolia] nos produzirão o seu Poema das Noites.

Vicente Carlos de Oliveira, tradutor da primeira edição portuguesa, de 1785

A repetição e a retomada que organizam o texto respondem, assim, a uma experiência que não se resolve por encadeamento, mas retorna sobre si mesma.

Não surpreende, nesse sentido, que o mesmo tradutor destaque «o triste, e o terrivel» das suas imagens e «o rapido vôo das suas ideias» . O que ele identifica como intensidade e rapidez corresponde, no plano do texto, a um movimento descontínuo, feito de variações e deslocamentos sucessivos.

Quando as Night Thoughts circulam pela Europa, o que se difunde não é um conteúdo específico, mas um modo de escrever que pode ser reconhecido e reconfigurado em outros contextos.

A edição portuguesa de 1785

A tradução lisboeta das Noites de Young, publicada pela Typografia Rollandiana, sob licença da Real Mesa Censória, constitui a primeira tradução portuguesa da obra e torna visível a circulação de uma forma literária em um novo contexto.

Quarenta anos após a publicação original, a obra chega a Portugal quando a sensibilidade que ela articula já encontrou espaço na Europa. Ainda assim, não circula sem mediação. Traduzida por Vicente Carlos de Oliveira e acrescida de notas, a edição revela um duplo movimento: apropriação e enquadramento.

O próprio tradutor justifica o trabalho por ser a obra «de muito merecimento» e «util à minha Pátria» . A tradução responde, assim, a uma necessidade concreta: oferecer ao leitor português um modelo de reflexão e de escrita já consagrado no espaço europeu.

A presença de comentários e a inclusão de materiais de orientação religiosa indicam que o texto não é recebido como simples literatura, mas como experiência que exige condução. A introspecção e a melancolia que organizam a escrita de Young não são neutralizadas, mas são acompanhadas de perto.

Mais do que transmitir Young, a edição portuguesa o reinterpreta. E, ao fazê-lo, evidencia que a noite — tal como se consolida em sua obra — não circula sem mediação.